MASSACRE EM MANAUS: POR ONDE ANDA RUDD?

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          Por Amadeu Roberto Garrido de Paula *

Rudd sentiu a floresta, enquanto seu pai o arremessava, para fazê-lo respirar. A mãe os olhava com amor e a sensação de dever cumprido. Aos poucos Rudd foi ganhando cores. Os povos das árvores grossas aumentara. Por fim, chorava sinal de vida – e de morte.

Seu nome tinha o significado de amor, no dialeto dos índios, antepassados de seu pai. Sua mãe, de algumas letras, não quisera adotar Rude e trocou o “e” por dois “dês”. Viera do Rio Grande do Norte; romântica, apaixonara-se pelo descendente da tribo, alto, forte e feliz, parecido com um galho robusto da poderosa e, não obstante, muitas vezes vencida, selva amazônica.

O pai morreu quando Rudd tinha oito anos, idade capaz de aspirar o trágico. Picada de cobra venenosa. A mãe claudicou, mas resistiu. Rudd abraçava-se às árvores, enquanto parcos vizinhos abriam a cova. O pai fora um exemplo, entregue tão tranquilamente à natureza que não vira a aproximação da víbora.

Naquele dia choveu muito e recrudesceu o suor típico do quente e úmido.

No dia seguinte, depois de curtir por várias horas a tristeza, aflorou ao limiar da consciência de Rudd o imperativo da reação, a necessidade de ser homem, substituir seu pai, ser como ele, trabalhar integrado ao sol, ao verde e à sombra. Haveria de demonstrar à mãe que o mundo não acabara.

Deixou de subir em árvores, bisbilhotar ninhos de joãos-de-barro, andar pelas pinguelas pênseis, e apresentou-se, fim de madrugada em que tíbios raios de sol já coloriam as águas, ao velho barqueiro que ganhava a vida transportando turistas da capital até o encontro das águas. Propôs ser seu auxiliar.

Viúvo e já cansado aos cinquenta e tantos, o homem perguntou se tinha documentos; sabia que muitos de seus patrícios da selva não os tinham, mas o convívio com os vindos da capital o ensinara que os homens são identificados. A negativa de Rudd não o abalou, pois desde que o viu anteviu seu sucessor no velho barco. Onde as populações são rarefeitas e amigas, as intuições são mais comuns.

Não há contorções da razão, esta é rala, levada tranquilamente por um inconsciente tão leve quanto as aragens do início da noite. Topou, mas perguntou: – “Só Rudd, nada mais? – É, respondeu o garoto. – Quer começar hoje? – Só vou avisar minha mãe.” Logo voltou, em correria.

No encontro das águas tomaram o destino das águas. Não discutiram salário. O menino, tímido, não pronunciava quase nenhuma palavra. Em compensação, o velho barqueiro ora falava das margens dos rios, dos locais conhecidos, dos fáceis e dos perigosos, das águas e, como não poderia deixar de ser, de como aquele barco era de boa cepa, navegara com ele por toda uma vida e jamais ocorrera um acidente. Bastava conhecer os caminhos daquele mar doce.

Ao aproximarem-se de Manaus, o barqueiro, Silvino, deu-lhe inevitável conselho: “- Menino, venha até aqui, quando eu não puder mais, atraque, ajude os passageiros com as mãos, e volte. A cidade é muito perigosa. Não foi feita para nós, da floresta. No máximo – vou ensinar-lhe um atalho – vá até o mercado. Lá têm muitos curimatã, matrinchã, tucunaré, piranha, traíra, sua mãe vai gostar muito. Mas compre e volte para o barco.” – “Sim senhor”, respondeu Rudd.

Aos sessenta anos, Silvino foi-se e doou, sem nenhuma formalidade onde não as há, o barco para Rudd. Rudd sentiu o fato quase como a morte do pai, mas sua reação foi a mesma: tocar esta terra dos homens.

Fez inúmeros bates-volta, passageiros o achavam jovem demais, mas que fazer? Aquele era um barco de pobres, vamos com o garoto! Ele deve saber, senão não estaria aí. E assim Rudd completou seus dezoito anos (segundo a contagem de sua mãe), integrado perfeitamente, do modo mais tranquilo e sorridente, como seu pai, àquela mãe natureza, que o provia de alimentos e algumas roupas suficientes.

O Natal de 2016 fora muito trabalhoso. Muita gente e muitos percursos. Bom para ele, que poderia levar um tucunaré para sua mãe. Sentia-se orgulhoso. Na semana, vendo tanta agente alegre para os lados da cidade, caiu em tentação. Depois da última viagem, foi ver o que havia debaixo daquelas luzes. Depois compraria o peixe. Andou dois quarteirões, o suor já batia, preocupado em não perder o caminho de volta. Dois jovens, um pouco mais velhos, se aproximaram e, vendo-o olhar constantemente para trás, aproveitaram: “-Oh maninho, tá perdido? Venha aqui. Ele nunca viu um carro, disse ao outro. É um troço de quatro rodas, o do mato. Entre aí, no banco de trás. Vamos, não sabe abrir a porta, porra?” E o jogaram.”- Vamos dar um perdido, maninho, depois você leva as coisas, se a casa cair, falamos que foi você. Genial.”

Rodaram um pouco, Rudd percebeu que em suas cintas havia um galho, ficou com muito medo, mas o que fazer? Nesse momento, uma viatura policial os esfregou num muro, soldados com fuzis fizeram sair e deitar no chão. O coração de Rudd batia e se lembrava do conselho.

Um dos policiais lhe deu um chute no fígado. Doeu demais. Levantou-o pela garganta, quase sufocou-o, com o fuzil apontado (Rudd não sabia o que era, mas pressentia que era coisa mais perigosa que a cobra).”- Documentos! Rudd sabia o que era, pois ouvida falar muito deles no barco. “-Não tirei.” Levou um tapa na cara e começou a chorar. “-Vagabundo, pare com este teatro, senão eu levo seu cadáver para a Delegacia.” Rudd não sabia o que era cadáver, mas engoliu o pranto. Foram ao Delegado, de poucas palavras.”- Flagrante. Carro furtado. Recolhe.” Rudd dormiu amontoado e ouvia:” – Se você voltar amanhã para cá, depois da audiência com o juiz, verá o que é virgindade, irmãozinho.”

Dia seguinte. Fórum em prédio gótico, Rudd tremia dos pés à cabeça. “-Rápido, disse o Oficial de Justiça. Não temos tempo para essas audiências inventadas pelo tal de Supremo.” O Juiz se dirigiu a Rudd do alto e o interrogou: “- Nome completo, endereço, profissão, identidade e carteira profissional”.

Rudd só conseguia dizer “Ru, Ru”, os dois dês ficavam engasgados. “-Você deve estar cheio de cola, garoto, não consegue nem dizer seu nome.” “-Bem, tenho um assunto civil a tratar, preventiva deferida. Todos para o Anísio Jobim”.

Rudd só conseguia lembrar-se do pai e do velho barqueiro. Por que não o ouvira? E agora, São João Batista, único santo de que sabia o nome, dito por sua mãe. Era véspera de ano novo. Prometera levar o tucunaré. Foi jogado num cubículo velho e apertado onde todos brigavam. Armados de lâminas e de lâminas lá fabricadas. Viu algumas cabeças decepadas e ficou inerte no meio do inferno. Sim, estava no inferno. As últimas palavras que ouviu: “-Sai daí, idiota”. Depois a dor lancinante, felizmente de um único segundo. A cabeça de Rudd rolou pela lama misturada com sangue e foi pisada várias vezes.

Por onde anda Rudd?

*Amadeu Roberto Garrido de Paula é poeta e autor do livro “Universo Invisível”. Advogado e membro da Academia Latino-Americana de Ciências Humanas.

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Sobre o autor

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