DIÁRIO DO GOLPE: UM SLOGAN QUE NASCE FRACASSADO

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Por Carlos Franco

Pró-ativa, talvez em busca da simpatia do governo do interino Michel Temer, que desde o último dia 12 de maio de 2016 ocupa a cadeira da presidenta eleita Dilma Rousseff, a empresa de comunicação visual Zoom, de Campo Grande (MS), decidiu ocupar 400 placas de outdoor administradas pela Contato, da qual é coligada com a frase “Não pense em crise, trabalhe”, a qual adiciona o logo de inspiração positivista com o qual Temer pretende associar seus 180 dias de interinidade. A frase inspirada no primeiro discurso de Temer no último dia 12 é, no entanto, resultado de fracassos, tanto na análise semiótica, epistemológica como psicanalítica de seu teor, como na placa em si que lhe deu origem no quilômetro 68, na cidade de Mairinque, que liga o interior paulista à capital.

Atentos às noções de semiótica (teoria geral das representações, que leva em conta os signos sob todas as formas e manifestações que assumem – linguísticas ou não), epistemologia (o estudo do discurso) e psicanálise (intencionalidade), internautas não perdoaram e lembraram que frase similar – O trabalho liberta – fora usada por Adolph Hitler numa Alemanha dividida então por uma crise política, econômica e moral no portão de acesso ao campo de concentração de Auschwitz nas áreas polonesas então anexadas pela Alemanha Nazista. A imagem que ilustra esta reportagem é um dos vários memes que se espalharam nas redes sociais neste fim de semana, inclusive por brasileiros residentes na Alemanha, que fizeram a associação direta com o slogan depois que a Zoom começou a estampar seus outdoors com a frase na capital Campo Grande.

Não bastasse o fato, que convida à reflexão, a placa que inspirou Temer também revela o retumbante fracasso de quem a utilizou. Nesse primeiro discurso, o interino que nasceu na cidade interiorana de Tietê, no Estado de São Paulo, lembrou que leu uma frase que deveria ocupar vários outdoor “Não fale em crise, trabalhe”. A frase fora colocada pelo então Posto Doninha, de beira de estrada nos anos 1990.

Repórter atento, o brilhante jornalista José Maria Tomazela, da Agência Estado, assina texto reproduzido pelo jornal O Estado de S. Paulo e por assinantes do serviço de informação da agência, contando a história desse fracasso depois que o programa de Concessões Rodoviárias do governo do Estado de São Paulo, na década de 1990, desde então nas mãos do PSDB, interditou o local para obras de ampliação, o que teria acabado levando o Posto Doninha a cerrar as portas e desligar as suas bombas. Hoje, revela Tomazela, há no local uma borracharia e uma lanchonete, além das antigas ruínas do que fora o Doninha, pois não falar em crise e trabalhar parece não ter resolvido em nada o problema de seus antigos donos.

Já Auschwitz e sua frase entraram para a história da humanidade como símbolos do Holocausto cometido por Hitler contra judeus, negros, homossexuais e opositores ao seu governo. Não é preciso dizer mais, inclusive em sinal de respeito às vítimas e seus descendentes, que somos todos nós, pois trata-se um crime retumbante contra a humanidade.

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